A ruptura de um lago no Butão é um alerta: financiar o monitoramento rio abaixo
Uma enchente de cerca de 7,4 milhões de metros cúbicos rumo à Índia não teve vítimas registradas até agora, graças aos alarmes, mas o Himalaia tem bem mais lagos do que alarmes.
Imagem gerada por IA
Um desastre que, até agora, não matou ninguém é uma história de sucesso ou um ensaio geral? A ruptura do lago glacial no Butão nesta semana parece as duas coisas, e achamos que a segunda leitura é a que deveria nos preocupar.
Uma noite, um lago, nenhuma morte registrada
Na noite de 29 de outubro, o lago Shintaphu, no distrito de Gasa, se rompeu. Segundo o Daily Pioneer, estima-se que cerca de 7,4 milhões de metros cúbicos de água tenham sido liberados pelo Mo Chhu. A água chegou a Taktsemakhang por volta das 20h15, levou o complexo de águas termais de Gasa Tshachu e cortou um trecho da rodovia Punakha-Gasa. Duas pontes Bailey teriam sido perdidas. As sirenes soaram, a área das águas termais havia sido evacuada e a emissora estatal do Butão não relatou mortos nem feridos.
Rio abaixo, a água passa a se chamar Sankosh e entra na Índia. Mais de 10 mil pessoas foram levadas para locais seguros em Bengala Ocidental, e o distrito de Dhubri, em Assam, reforçou a preparação, informa o Kashmir Life. Os primeiros relatos também mencionavam que o Punakha Dzong foi fechado por segurança pública. Uma ressalva: um trecho sem data de um veículo suíço fala em pessoas desaparecidas, o que as reportagens datadas não confirmam; por isso, ficamos com "nenhuma vítima registrada até agora".
A boa notícia é uma estatística sobre alarmes, não sobre lagos
É justo dar crédito. A evacuação ocorreu antes de a água chegar, e o Butão chegou a realizar um simulado de evacuação de GLOF no Punakha Dzong em 11 de setembro, segundo seu Ministério do Interior. É assim que um sistema funcional se parece, e provavelmente ajudou.
Mas repare no que fez a diferença: um lago que já estava em uma lista. O Daily Pioneer descreve o Shintaphu como um dos 17 lagos que o Butão classifica como potencialmente perigosos, entre os 567 lagos glaciais contabilizados por seu centro nacional de hidrologia. O Butão é um país pequeno que parece ter investido em conhecer seus riscos. Agora pergunte quantos vales do Himalaia têm uma lista, uma sirene e um simulado.
O aquecimento cria lagos mais rápido do que os Estados criam sistemas de alerta
O mecanismo é simples. As geleiras em recuo deixam depressões que se enchem de água de degelo, contida por gelo ou por rocha solta e sedimentos que podem se tornar instáveis. Mais aquecimento significa mais lagos e maiores, de modo que um volume maior pode ser liberado em caso de falha. Esse é o argumento da documentação, e é sólido, embora seja preciso cautela: as fontes não dizem o que provocou esta ruptura específica, e atribuir um único evento às mudanças climáticas seria exagero.
O padrão, porém, é difícil de descartar. Um estudo de 2020 na Water Resources Research examinou 329 lagos glaciais do Himalaia indiano e concluiu que cerca de 22% representavam perigo alto ou muito alto. A Índia já viveu a inundação de Kedarnath, em 2013, e a ruptura do lago South Lhonak, em Sikkim, em outubro de 2023, que foi letal ao longo do Teesta. Especialistas pedem repetidamente monitoramento de geleiras e sistemas de alerta antecipado, enquanto o aquecimento continua criando e ampliando lagos.
Na nossa visão, é um descompasso de relógios. As metas de emissões operam em décadas e, achamos, fazem efeito devagar mesmo que sejam cumpridas; o gelo já perdido continuará enchendo bacias de qualquer maneira. Monitoramento, sirenes, réguas de nível dos rios e simulados funcionam com orçamentos de poucos anos e compensam já na primeira noite em que algo se rompe.
O dinheiro deve ir para a camada pouco glamorosa, rio abaixo
É preciso financiar a parte sem brilho: medidores em pontos como Tashithang e Yebesa, que o centro de hidrologia do Butão monitorava; compartilhamento de dados entre países (os alertas da Índia neste caso seguiram as informações do Butão, com a cheia esperada na fronteira de seis a oito horas depois); e simulados em cada vale abaixo de um lago sinalizado. O mesmo vale para a hidrelétrica, já que o projeto Punatsangchhu estava entre as preocupações levantadas.
Nada disso substitui a redução de emissões. Mas uma promessa não evacua um vilarejo às 20h. Se a enchente desta semana ensina alguma coisa, é que as vidas mais baratas de salvar são provavelmente aquelas em que alguém sabia que o lago era perigoso e avisou as pessoas a tempo. Os lagos que não listamos são o verdadeiro problema. Vamos mapeá-los primeiro.
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