Corvos rápidos não são mais inteligentes que a gente: são outro projeto
Corvos decidiram duas vezes mais rápido que humanos e macacos em um teste de laboratório. Isso diz menos sobre quem é mais esperto do que sobre as várias formas de a evolução construir um cérebro.
Foto: Alexis Lours / Wikimedia Commons (CC BY 4.0)
Os corvos são mais inteligentes que nós? As manchetes flertam com o sim: duas aves, uma tela sensível ao toque e um tempo de decisão cerca de duas vezes mais rápido que o nosso. É um ótimo gancho. Também é a pergunta errada, e o próprio estudo aponta para uma mais interessante.
Dois corvos e uma tela sensível ao toque produziram um resultado real, mas restrito
Os pesquisadores da Universidade de Tübingen Andreas Nieder e Philipp Schmidbauer treinaram dois corvos-pretos machos, Iggy e Lenny, em uma tarefa de movimento. Como resume o New York Post, pontos na tela se deslocavam para a esquerda ou para a direita entre iscas aleatórias, e as aves bicavam o lado correspondente para ganhar uma larva de farinha. Cada escolha levou em média cerca de 235 milissegundos, aproximadamente o dobro da velocidade de humanos e macacos no mesmo tipo de teste, com precisão perfeita quando o movimento era claro.
A equipe também registrou 248 neurônios no nidopallium caudolaterale, a região das aves que desempenha um papel comparável ao do córtex pré-frontal dos primatas. A partir dessa atividade, foi possível prever a escolha cerca de 170 milissegundos antes de a ave fazê-la. O trabalho é publicado na Science, segundo o The Transmitter.
Velocidade é uma propriedade do encanamento, não da mente
É aqui que a gente seguraria a comemoração. Dois corvos são uma amostra minúscula, e a tarefa é um tipo bem restrito de decisão perceptiva: para que lado a nuvem está se movendo? Ser rápido nisso não é o mesmo que decidir bem em geral. Este estudo não mostra que um corvo venceria uma pessoa na escolha de uma carreira, nem mesmo no planejamento de uma rota para contornar um obstáculo que nunca viu.
Também ainda não há um mecanismo satisfatório. O Ars Technica observa que a equipe não consegue atribuir a velocidade a um único processo rápido, e que a principal explicação de Nieder é que quase todos os processos biológicos são mais rápidos nas aves do que nos mamíferos. Se isso se confirmar, o resultado parece menos um raciocínio superior e mais uma frequência de clock mais alta. Os pesquisadores apontam as exigências da vida das aves, em que o processamento visual rápido e a resposta motora importam para o voo, o movimento ágil do bico e a fuga de predadores. Um animal voador que precisa escapar de predadores em tempo real sofre forte pressão para reagir depressa.
Essa leitura é uma interpretação, plausível, e não uma explicação comprovada. Mas ela se encaixa no padrão: a velocidade é barata de selecionar quando a sua sobrevivência depende dela.
A verdadeira manchete é a arquitetura
O que achamos mais valioso é a observação de Nieder de que um cérebro não precisa de um neocórtex de mamífero para realizar computações sofisticadas. O The Transmitter acrescenta que os corvos e os mamíferos compartilharam um ancestral há mais de 300 milhões de anos e têm estruturas neurais distintas. Duas linhagens, fiação muito diferente e, ainda assim, surgem princípios de decisão comparáveis. Essa é a descoberta interessante: convergência, não um ranking.
Inteligência não é um único botão com os humanos no topo e os corvos um pouco à frente em um eixo. Nosso cérebro nos dá coisas que este experimento não mede, como linguagem, planejamento abstrato e cultura cumulativa. Suspeitamos que elas possam ter algum custo em velocidade, mas isso é especulação que o estudo não testa. Os corvos parecem ter feito uma troca diferente, e se a velocidade lhes custa algo em outros campos, simplesmente não sabemos a partir deste estudo.
Como ler a próxima manchete "animal supera humanos"
Nossa recomendação é simples. Pergunte o que foi medido, em quantos animais e se o resultado foi de velocidade ou de qualidade. Aqui, a resposta é uma tarefa visual, duas aves e uma diferença marcante no tempo de reação. Isso é boa ciência e um excelente motivo para deixar de tratar o córtex dos primatas como o modelo do pensamento.
Não é motivo para coroar os corvos. A lição melhor é mais humilde e mais divertida: a evolução construiu pelo menos duas máquinas bem diferentes que chegam a computações parecidas, e uma delas roda ao dobro da nossa velocidade. Ser inteligente não é uma coisa só, e os próximos experimentos, com mais aves e tarefas mais variadas, devem mostrar até onde vai de fato a vantagem do corvo.
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