2,8 milhões de enguias em um monte submarino: o fundo do mar ainda é um mapa em branco
Um único monte submarino na costa da Tasmânia abriga milhões de enguias de águas profundas que ninguém tinha contado. É um alerta: mapear o fundo do mar antes de pensar em explorá-lo.
Imagem gerada por IA
Como é possível perder o rastro de milhões de animais? Pelo visto, com muita facilidade, desde que vivam fundo o bastante. Uma equipe de cientistas australianos estimou, pela primeira vez, o tamanho de uma aglomeração de enguias de águas profundas que se forma todos os anos em volta de um monte submarino na costa da Tasmânia. O número no pico: cerca de 2,8 milhões de indivíduos.
O que a contagem diz e o que ela não diz
Segundo a edição espanhola do Gizmodo, o estudo coloca esse pico de acumulação entre 2.557 e 3.547 toneladas métricas de enguias. Os animais não estão distribuídos de forma uniforme pela montanha. Como descreve a edição latino-americana de Martín Cid, eles se amontoam em enxames densos a uma profundidade específica no lado oeste, sobre um terreno mais fundo e plano. O peixe-relógio, um peixe de águas profundas de vida longa que divide o monte submarino com elas, fica nas encostas íngremes.
As reportagens que lemos apontam a reprodução como uma possível explicação. Reforçamos o "possível". Alguns veículos dizem que o fenômeno pode estar relacionado à reprodução, e o título do Gizmodo diz que a ciência não sabe por quê. Não vimos o estudo em si, então não podemos dizer como ele foi publicado nem quão sólido é o número. Os 2,8 milhões devem ser vistos como uma estimativa com uma margem de erro ampla, não como um censo.
A surpresa não são as enguias, é o ponto cego
O reflexo é se espantar com o tamanho. Preferimos nos preocupar com o momento. Essa aglomeração se repete todos os anos, no mesmo lugar e na mesma profundidade, e só agora alguém lhe deu um número. Os animais não apareceram de repente. Nós é que não tínhamos olhado.
Os números sobre montes submarinos sugerem que este não é um caso isolado. O verbete da Wikipédia cita estimativas de cerca de 100 mil montes submarinos com pelo menos um quilômetro de altura, e um número próximo de 1 milhão se os menores forem contados. Suspeitamos que só uma pequena fração deles recebeu algo parecido com a atenção que este acabou de receber. Se um único pico na Tasmânia pode esconder um enxame dessa escala, é razoável perguntar o que os outros escondem. Outros relatos recentes apontam na mesma direção, entre eles o de um monte submarino na costa do Pacífico do Canadá, onde cientistas encontraram milhões de ovos em um vulcão que era considerado extinto.
Mapear primeiro, explorar depois
Aqui tomamos posição. Uma concentração como essa é um presente para a ciência: um lugar onde um grupo de animais difícil de estudar se reúne em um ponto previsível. Também é, para qualquer um com uma rede ou uma broca, um alvo muito óbvio. Aglomerações densas e previsíveis são exatamente o que torna uma pescaria eficiente, e exatamente o que pode tornar uma população frágil se a aglomeração for um evento reprodutivo. Se os animais estão mesmo ali para se reproduzir, retirá-los em massa atingiria a próxima geração, e não apenas os adultos.
Não estamos dizendo que alguém planeja pescar essas enguias. Nada do que lemos diz isso. Nosso ponto é sobre a ordem das coisas. Na nossa visão, a sequência tem sido, com demasiada frequência: achar, explorar, estudar o que sobrou. No oceano profundo, ela deveria ser invertida. Primeiro mapear os montes submarinos, contar o que vive neles e descobrir quando e por que o grupo se reúne. Só então decidir o que, se é que algo, pode ser retirado.
Há também uma lição sobre como lemos reportagens como esta. "A ciência não sabe por quê" pode soar como fracasso. Achamos que é o ponto de partida honesto. O mais útil desta descoberta é diminuir a nossa confiança de que o retrato do oceano esteja completo.
Nossa recomendação é simples. Tratar este monte submarino como um local de referência: monitorá-lo, repetir a contagem e descobrir o que as enguias fazem ali. E tratar os demais montes submarinos como capítulos não lidos, e não como espaço vazio à espera de um uso.
Ainda não há temas: abra o primeiro.
Mais matérias
Árvores não são estátuas: elas sentem a inclinação e reagem
Um estudo francês com álamos jovens sugere que as árvores percebem a própria forma e a corrigem com madeira oposta, lembrando que as plantas são bem mais ativas do que imaginamos.
Parques solares não são armadilhas para aves, mas “refúgio” ainda não está provado
As manchetes sobre parques solares e aves apontam em direções opostas. Em vez de escolher um slogan, devemos exigir que o habitat faça parte do planejamento desses parques.
Até aves marinhas sofrem de jet lag, e isso deveria nos dar humildade na conservação
Uma nova descoberta sugere que aves marinhas migratórias podem se perder quando o senso de tempo falha: ainda entendemos pouco da navegação, e o monitoramento de longo prazo vale mais que suposições.
107 mil espécies comercializadas: a proteção deve seguir o comércio
Estudo dobra para 107.356 o número de espécies no comércio de vida selvagem, e a meta global cobre só 2% a 3%. Regras feitas para animais famosos ignoram o mercado real.



